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A Baqueta da Arte

Por que é tão difícil fazer uma baqueta ?

Dalton Ferreira Dalton Ferreira |
A Baqueta da Arte
A Baqueta da Arte

Sem sombra de dúvidas a baqueta da arte é um dos itens mais importantes nas práticas de magia cerimonial, sendo responsável por canalizar a força de vontade, as intenções, os pensamentos, e a energia do magista, projetando os mesmos no plano astral para diversos fins nas operações da arte.


Sendo um item tão importante, o mesmo carrega um fardo de dificuldade na confecção que assombra muitos magistas, até mesmo os mais avançados, fazendo muitos desistir do processo, ou pulando etapas que comprometem a eficácia da ferramenta.


Meu objetivo aqui hoje é descomplicar o processo de fabricação da baqueta da arte, fazendo algumas reflexões a respeito das instruções dadas no grimorio As Clavículas de Salomão, visto que é o grimorio em que normalmente a maioria dos praticantes de magia cerimonial se baseia, mas que possui várias lacunas no processo de instrução, e até mesmo certas pegadinhas de ordem prática.


Irei citar alguns capítulos e páginas específicos, portanto é importante lembrar que a versão das Clavículas que irei usar como base é a de MacGregor Mathers, dito isto, vamos lá...
A primeira observação importante a se fazer é de que, segundo a nota de rodapé da página 268, os manuscritos originais das clavículas, em hebraico, não constam informações sobre a baqueta/vara da arte, logo, suponho que no processo de tradução dos manuscritos, MacGregor Mathers usou como base outros grimorios de magia cerimonial para preencher a falta de informações sobre a baqueta da arte dos manuscritos originais, sendo o principal deles, o grimorio de Trithemius (famoso pelo sistema de invocação angelical) como ainda na mesma nota de rodapé é citado.


Inicialmente, as instruções para a confecção da Baqueta citam que a mesma deve ser feita das madeiras de Sabugueiro, Junco, Pau-Rosa, Aveleira ou Nogueira.
Uma curiosidade é que, em Trithemius, nada se fala dessas madeiras, sendo a única indicação, a madeira de Ébano, que não é citada nas Clavículas, então aqui já começam as incógnitas, levando em consideração que o grimorio de Trithemius foi usado como base para agregar nas instruções das Clavículas, e partindo dessa análise, não há muita lógica, muito menos argumentos do porque devem ser aquelas madeiras.


Por muito tempo eu achei que as madeiras citadas tinham como fundamento o fator de correspondência planetária, que seriam árvores correspondentes a Mercúrio ou ao Sol (planetas aos quais normalmente a baqueta é associada), mas em uma pesquisa aprofundada nos livros de Agrippa, entre outros, percebi que nem todas as madeiras citadas eram Mercurianas ou Solares, algumas eram ligadas a Saturno, a Lua, e até mesmo Júpiter, o que refutou minha própria teoria das correspondências, então, voltamos à estaca zero, novamente não há muita lógica, nem argumentos que expliquem o motivo de serem usadas àquelas madeiras especificamente.


Seguindo nas instruções da fabricação, é dito que a madeira (qualquer que seja) deve ter somente um ano de idade (crescimento), sendo mais um dos obstáculos no processo de fabricação, porque a não ser que você seja um botânico experiente, ou que plante a semente e espere exato um ano para cortar a árvore, é impossível saber a idade exata da planta, então esta é mais uma grande incógnita do processo, além de claro, também não há explicações ou argumentos do porque deve ser feito dessa forma.


Ainda nas instruções, também é dito que o galho deve ser cortado da árvore em um golpe só, gerando muitas dúvidas de como isso poderia ser feito, já que, a depender da espessura do galho, até mesmo alguém mais forte teria dificuldades de retirar com um golpe só.
Outra dúvida muito grande também é sobre a ferramenta correta que deve ser usada para tal ato, e especula-se que seja a faca de cabo branco (ferramenta também abordada nas Clavículas), comprovando mais ainda que fosse extremamente difícil na maioria dos casos cortarem o galho em um golpe só apenas com uma faca.


Tenho uma teoria de que a Foice seria a mais indicada para tal, creio que a mesma facilitaria um pouco o processo e possivelmente daria pra cortar o galho com um único golpe de foice, mas honestamente ainda não obtive informações suficientes para entender o uso exato da foice, cuja qual é apresentada a ilustração nas Clavículas, mas não há mais informações sobre a mesma.


A única parte da instrução que a meu ver faz sentido, é a de que o corte deve ser realizado no dia de Mercúrio, à saída do Sol, permita-me explicar o por que.
Como dito anteriormente, a Baqueta é uma ferramenta normalmente relacionada ao elemento Ar e ao planeta Mercúrio, mas há divergências, em certas escolas de magia cerimonial, a mesma é considerada como elemento fogo e relacionada ao Sol, mas baseio minha teoria assumindo a baqueta como de fato ligada ao elemento Ar e pertencente a Mercúrio, logo, é evidente que a mesma deva ser fabricada e consagrada nos dias e horas de Mercúrio, até aí tudo bem, mas as Clavículas citam que o processo inicial, ou seja, o corte do galho deva ser feito à saída do Sol no dia de Mercúrio, isto é, na primeira hora de Mercúrio (o nascer do sol de cada dia marca a primeira hora planetária do dia em questão), então porque deve ser feito justo na primeira hora planetária, e não nas demais horas de Mercúrio, sendo uma ferramenta relacionada a este planeta, a mesma poderia ser feita em qualquer horário de Mercúrio não é mesmo?


Não necessariamente, veja bem, se você reparar nas instruções de outras ferramentas da arte, como a espada, por exemplo, que é ligada a Marte, também é citado que o processo inicial seja feito no dia e hora de mercúrio, e não no dia e hora de Marte, isso acontece, pois o dia de Mercúrio é um dia neutro, e é nele que tradicionalmente a maioria dos itens da arte é fabricado, independente da sua correspondência planetária. Mas o que isso tem a ver com o fato da baqueta ter que ser feita na primeira hora de Mercúrio?


É um fato que cada dia planetário possui quatro horários planetários em domicílio, isto é, o dia da Lua tem quatro horários da Lua, o dia de Marte tem quatro horários de Marte, o dia de Mercúrio tem quatro horários de Mercúrio, e por aí vai, sendo então, uma hora ao nascer do sol, sendo a primeira hora daquele planeta, uma hora de tarde, sendo a segunda hora daquele planeta, uma hora de noite, sendo a terceira hora daquele planeta, e uma hora de madrugada, sendo a quarta e última hora daquele planeta. Quanto mais as horas forem passando, mais fraca fica a influência da energia planetária, logo, a primeira hora planetária é a mais forte, e a quarta hora é a mais fraca, pois já está em transição para um outro ciclo.
Então eis o motivo da recomendação de que a Baqueta deve ser feita logo na primeira hora de Mercúrio, porque além de ser o horário clássico, é também o horário que garante mais energia de Mercúrio na ferramenta, visto que a influência planetária naquele horário é a maior possível.


O último detalhe do processo de fabricação da baqueta é a gravação dos caracteres: “AGLA + ON + TETRAGRAMMATON” , que também é um padrão baseado no grimorio de Trithemius, como é citado na observação logo no início da página 269.
Isso nos mostra também que a Baqueta das Clavículas, normalmente usada para práticas de Goetia, é a mesma usada na Magia Angelical, visto que o modelo foi espelhado no famoso grimorio de invocações angelicais.


Feitas todas essas observações, o que podemos concluir então sobre o processo de criação da baqueta?


1- Se você conseguir as madeira citadas, ótimo, pois dessa forma você se conecta um pouco com a egregora da tradição, mas isso não significa que você deva deixar de fazer a baqueta simplesmente porque não tem acesso à madeira citada nas instruções não é como se não fosse funcionar sua baqueta pelo simples fato de não ser da madeira "correta", coloco entre aspas por que não há argumentação do porque usar aquelas madeiras, logo, as instruções não devem ser tomadas como verdade absoluta.


Na falta das madeiras citadas, procure uma árvore a seu gosto, algo com que você tenha alguma ressonância, garanto que se você fizer o processo colocando toda a sua vontade, fazendo o possível dentro da sua realidade e disponibilidade de materiais, a madeira será apenas um detalhe, a eficácia da ferramenta está na vontade depositada no processo de criação, visto que é justamente a Baqueta quem canaliza/expressa a vontade do mago, a mesma não vai deixar de funcionar só porque a madeira não está idêntica ao grimorio.


2- Se você conseguir identificar a idade da árvore, e, além disso, cortar o galho em um único golpe, ótimo, mas convenhamos que a maioria dos magos modernos, até mesmo os mais experientes, não segue a instrução a respeito da idade da árvore, usamos as árvores que estiverem ao nosso alcance, com as ferramentas de corte que temos ao nosso alcance, e se dermos sorte, cortamos o galho no primeiro corte. Novamente, a vontade no processo é sempre o fator mais importante.


3- Uma complicação necessária ao processo é seguir a recomendação de colher o galho no nascer do sol de uma quarta feira (dia de Mercúrio), eu concordo que se o galho for colhido em qualquer outro horário de Mercúrio, irá funcionar, mas claramente acordar cedo só pra fazer esta etapa agregará muito em energia de vontade na sua ferramenta, visto que essa seria a parte mais complexo do processo, o restante é relativamente simples, então vale a pena o esforço, serão apenas algumas horas de sono a menos para a confecção de um item que vai lhe acompanhar por anos e será uma ferramenta de auxílio na arte que provavelmente mudará sua vida pra melhor, então não se deixe levar pela preguiça, coloque sua verdadeira vontade no processo.


4 - Como não há especificações, os caracteres podem ser gravados com agulha da arte, tinta da arte, ou até mesmo com um pirógrafo, sendo as cores, fonte da escrita e demais acabamentos, a critério estético do magista.


Dicas pessoais para o processo de fabricação:


Comece escolhendo a árvore a qual você irá retirar o galho para a baqueta, independente de qual árvore seja como já foi mencionado, mas tente escolher uma árvore que lhe agrade, algo com que você tenha alguma familiaridade.
Identifique o galho o mais reto possível, na dúvida faça alguma marcação para identificar, será ele que você irá cortar quando chegar o dia de Mercúrio.


Vale lembrar que o senso comum da tradição pede para que os itens da arte sejam feitos em lua crescente, logo, a baqueta também terá que ser feita durante esse período.
Então em uma Quarta-Feira de lua crescente, ao nascer do sol, dirija-se ao local onde se encontra a árvore escolhida, e colha o galho escolhido.
Quanto ao tamanho da baqueta, tradicionalmente é indicado que seja da ponta do dedo indicador, até o limite do antebraço do magista.


Para garantir, corte sempre um pouco a mais, e depois faça o ajuste para o tamanho correto, cortando os excessos.


Além de cortar os excessos definindo o tamanho certo, aproveite para descascar o galho.
Após isso, o ideal seria guardar o galho por uma semana ou mais para espera-lo secar, não será uma boa ideia trabalhar nos caracteres com a peça crua, pois a mesma soltará água e acabará interferindo na fixação da tinta e demais acabamentos, então espere até um próximo dia e hora de mercúrio em lua crescente para dar continuidade ao trabalho, dando os acabamentos necessários.


Vale lembrar que todos os materiais usados para gravar os caracteres (tintas, pincéis, buril, etc.) deverão estar devidamente consagrados segundo a arte.
A consagração da peça é relativamente simples, também deverá ser feita em dia e hora de Mercúrio, durante a lua crescente ou cheia.


Monte um pequeno altar ao leste com sua baqueta em cima, queimando incensos da arte devidamente consagrados.


Perfume sua baqueta com os incensos, erga sua baqueta acima da cabeça, ainda em direção ao leste, e pronuncie a consagração conforme descrito na página 269:


“ADONAI, Santíssimo, EL, Fortíssimo, digna-se a abençoar e consagrar este bastão, para que tenham a virtude necessária por você, oh santo ADONAI, cujo reino perdura pelos séculos dos séculos. Amém.”


Perfume mais uma vez, e após isso sua baqueta já estará devidamente consagrada, recomendo também que medite um pouco com a mesma, para conectar definitivamente com a sua energia.


Meu último conselho é:


Mesmo que você não consiga fazer exatamente como está descrito no grimorio, faça do jeito que for possível, mas faça por conta própria, hoje em dia é muito comum nas comunidades ocultistas a comercialização de galhos já cortados, de árvores específicas, o que é complicado, pois, não há como ter garantia de que a peça foi cortada no dia/horário e condição lunar correta, e mesmo que houvesse garantia, ainda assim deixaria a desejar no quesito energia própria.


Veja bem, como dito no início deste artigo, a Baqueta é um dos itens mais importantes que um mago deve ter nas suas práticas de magia cerimonial, é até justificável a terceirização de ferramentas como circulo mágico, triângulos, facas, etc. Eu mesmo tenho vários itens da arte terceirizados, que eu apenas purifiquei e consagrei por conta própria, mas não faz sentido que a tarefa de fabricar um item que carregará a energia e vontade do magista, seja delegada a outra pessoa, é algo extremamente íntimo.
Por isso sou a favor de que pelo menos a Baqueta seja feita 100% pelo próprio magista, e feita o tempo todo com a devida vontade.


Sei que não é um processo simples, mas tenho esperança de que esse texto possa ter facilitado o seu entendimento sobre o tema, principalmente por mostrar que alguns detalhes que normalmente tornam o processo de fabricação quase impossível, são na verdade pequenas pegadinhas e possivelmente superstições dos antigos magos que já não mais se aplicam a atualidade, é necessário ler os grimorios entendendo o contexto histórico em que foram escritos, e principalmente, ter a sabedoria para discernir aquilo que já não se enquadra aos magistas modernos.


Texto: DaltonRF | Covil do Eremita
Foto: The Digital Ambler